GEA WEB CONFERENCE 2020: “É POSSÍVEL VIAJAR E HÁ QUE CONTINUAR A APOIAR FINANCEIRAMENTE O SETOR NESTA TRANSIÇÃO DIFÍCIL”

Ambitur, 15 de Dezembro 2020

 

Realiza-se hoje a GEA Web Conference 2020 que, esta manhã, recebeu Sandra Carvão, diretora de Inteligência de Mercado e Competitividade da Organização Mundial de Turismo (OMT), como primeira oradora acerca do “O Impacto do Covid-19 no Turismo Mundial e Perspetivas de Futuro”. 

A responsável da OMT frisa que o setor do turismo estava a ter um “crescimento muito superior à economia global”, nos últimos cinco anos, e que em 2019 se registavam mais de 1,5 mil milhões de turistas a viajar internacionalmente. Todavia, eram colocadas algumas questões em termos do designado ‘overtourism‘ que, para Sandra Carvão, está relacionado com uma possível “má gestão” dos destinos e que produz “impacto nas comunidades locais” e, também, a “crescente consciência do impacto ambiental no setor”, sobretudo, em termos de mudança climática por parte do transporte aéreo. Em adição, notava-se a “tecnologia cada vez mais presente em todas as partes da viagem”, inclusive na experiência no destino.

RESTRIÇÕES, O PRINCIPAL FATOR QUE IMPEDE A RECUPERAÇÃO

A partir de março, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declara a Covid-19 como pandemia “a maior parte do mundo entrou em lockdown“, o que tem tido um “impacto impressionante” no setor: segundo dados da OMT, “perdemos cerca de 70% de turistas até agosto” com os destinos da Ásia a serem os mais afetados por terem sido os primeiros a registar casos do vírus e onde a “abertura de fronteiras é muito mais lenta”, avança Sandra Carvão.

Este é sem dúvida o “pior ano de sempre” para a indústria, comenta a oradora, ou não tivéssemos voltado a “níveis de procura de turistas internacionais de há 30 anos atrás”  e com uma “perda de mais de mil milhões de exportações geradas pelo turismo” em todo o Mundo.

A OMT lançou a ferramenta Tourism Recovery Tracker, que permite seguir os vários indicadores a nível global, através do qual se verifica que as taxas de ocupação rondam agora os 40% e que a procura de alojamento e reservas diminuiu para metade face ao ano passado. As estadias de curta duração e o turismo doméstico são os indicadores que registam menor redução. Face à 2.ª vaga da pandemia, a partir de outubro, e com mais restrições nota-se uma “descida na maior parte dos indicadores”.

A perspetiva é então uma “recuperação forte a partir do final de 2021 quando a vacina estiver implementada” e depois uma retoma “lenta e gradual” recuperando os níveis de 2019 apenas entre 2023 e 2024. Sandra Carvão sublinha que, em abril, 90% dos países da Europa tinham as suas “fronteiras completamente fechadas” e que essa percentagem baixou para os 3%. A América também nunca “fechou tanto como outras regiões do Mundo” enquanto África e o Oriente Médio estão a “abrir gradualmente” as suas fronteiras. Pelo contrário, a Ásia, por ser um continente que já passou por situações semelhantes à Covid-19 “tem uma abordagem muito mais restritiva”, pelo que a sua reabertura será demorada.

Do ponto de vista da OMT, é necessário “reforçar a importância de apoiar o setor nesta fase de transição” em que “há boas notícias mas os desafios ainda são muitos”, como as “diferentes medidas que são requeridas à entrada dos diferentes países” confrontando os consumidores com “situações que mudam a cada semana”, explica a responsável. As restrições são, por isso, o “principal fator que impede a recuperação” seguidas da evolução do vírus e da confiança – económica e de viajar – dos consumidores.

OS TURISTAS NÃO DEVEM SER TRATADOS COMO DOENTES DE RISCO

Questionada sobre o trabalho da OMT contemplando a harmonização das medidas, Sandra Carvão reflete “a importância da coordenação de todos os órgãos nacionais, de saúde, transporte e turismo” pois apesar do “esforço grande” da Comissão Europeia, nessa matéria, “tem de partir também dos países e chefes de Estado”. Atenta ainda que já há guias que definem que “os turistas não devem ser tratados como doentes de risco” mas que “os testes rápidos não são um garante de que não haja infeção”, pelo que importa rever esses parâmetros.

Sandra Carvão argumenta que o controlo da Covid-19 e a posterior retoma do turismo dependerá muito da “capacidade de implementação, da disponibilidade das vacinas e da aceitação das populações”, sendo que a última tem vindo a diminuir ao longo dos meses.

IMPLEMENTAR AS MEDIDAS NECESSÁRIAS E AUMENTAR A COORDENAÇÃO ENTRE OS GOVERNOS

Em relação ao futuro, Sandra Carvão considera importante perceber como se pode transformar o desafio da pandemia numa oportunidade, nomeadamente, de “melhorar algumas deficiências a nível da competitividade e sustentabilidade”. A verdade é que “o turismo doméstico ganhou uma vantagem que não tinha” – atingindo níveis próximos aos de 2019 durante o verão na Europa – e apesar de “não compensar a 100% é importante nas atuais circunstâncias com um mercado que está a mostrar reação”, defende.

Destaque também para a procura pelo turismo rural e pelas viagens de estrada, com maior autenticidade e relevo dos valores locais, com a quebra do turismo urbano, religioso, dos eventos – desportivos e culturais de maior dimensão – e reuniões. Agora, há que descobrir “como as empresas se adaptam a esta nova realidade do teletrabalho e de fazer reuniões à distância” até porque “as viagens de trabalho podem ser repensadas”, embora a oradora confie que existe uma “procura à espera de puder realizar os seus eventos”. O turismo sénior que estava também a crescer é uma incógnita face à “preocupação com a saúde”. São os mais jovens a viajar mais, atualmente, por se considerarem “menos expostos” ao vírus e serem mais aventureiros.

As medidas de saúde e segurança serão cada vez mais importantes assim como as políticas de cancelamento. Face à “volatilidade” das restrições, as reservas são feitas mais tardiamente mas será esta uma “tendência que no futuro irá realmente permanecer?”, questiona Sandra Carvão. Por último, porque a “sustentabilidade também é competitividade” a responsável defende que “os segmentos mais desfavorecidos e com menos mobilidade podem ser uma oportunidade de negócio”.

A mensagem principal que a OMT tenta agora passar é a seguinte: “É possível viajar, há que implementar as medidas necessárias e aumentar a coordenação entre os governos, há que continuar a apostar em apoiar financeiramente o setor nesta transição difícil ainda e há que prepararmo-nos para um novo período, quando esteja a vacina, porque vamos ter que ter mecanismos e protocolos para puder de alguma forma verificar essa situação.”

 

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